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A cereja do bolo

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Hesitei em emitir opinião após o rebaixamento do Fluminense. Triste, nervoso e incapaz de raciocinar de forma correta, preferi esperar alguns dias, para que mais calmo, pudesse externar a minha opinião sobre mais um episódio de extrema vergonha para a minha consciência Tricolor e para a história do Clube.

O rebaixamento era inevitável, ainda que tivesse ocorrido um milagre, o Fluminense já estava moralmente destruído. O que rebaixou o Campeão Brasileiro não foi um lance isolado, não foi falta de dinheiro ou falta de planejamento. O que rebaixou o Fluminense foi à incapacidade administrativa de uma gestão que com sua soberba, acreditava ser a maior de todos os tempos, mas ao final dela, foi incapaz de manter um mínimo de dignidade que era a permanência na série A.

As desculpas, todas, nós sabemos. A Procuradoria Geral da Fazenda Nacional, as gestões anteriores, o acaso, o patrocinador, chamado de “sabotador” por membros do principal grupo de apoio ao presidente, talvez um treinador ou outro, ou a capacidade de um atleta do elenco, ainda que este mesmo atleta tenha sido campeão Brasileiro um ano antes. A verdade é que o campeão Brasileiro, com um dos elencos mais caros do País, com um patrocínio da Adidas quase três vezes maior que a gestão anterior, e cotas de TV idem, foi rebaixado, dando vaga a clubes como a Chapecoense, com orçamento mensal de 500 mil, mais ou menos a metade do salário do Fred.

O presidente se pronunciou em entrevista coletiva após o rebaixamento, se limitou a falar sobre a troca do gerente de futebol, ou diretor executivo de futebol, como preferem chamar o cargo no Fluminense, para não constranger o Marcelo Teixeira, contratado para tal e relegado às divisões de base. Falou em um ano forte em 2014, em resgate da dignidade em sua gestão. Ainda procuro entender onde estaria à dignidade do clube após o quarto rebaixamento, em uma condição muito superior a que estava na década de noventa.

Eu poderia levantar diversos erros e fracassos, ainda que com o vitorioso ano de 2012 da gestão do presidente Peter Siemsen. Preferi me atentar exclusivamente nesta temporada. Após o título, o presidente confiou que o elenco de três anos teria gás para mais uma temporada, não teve. É bem verdade que ele não acreditou nisso sozinho, mas o Fluminense foi reforçado com jogadores que agora são dispensados, como o Rhayner, Marcelinho e Felipe, ou seja, na prática não servem nem para a disputa da série B.

É de se lamentar que entre esses contratados, esteja o argentino Fabian Monzón, liberado para “resolver problemas particulares”, quando na verdade estava sendo negociado pelo Lyon, com o consentimento do Fluminense, que se viu sem um lateral reserva para a posição do Carlinhos que se machucou. A lesão do Carlinhos foi umas das adversidades da temporada, como aconteceu também com o Fred e com o Bruno, mas não ter reservas a altura, ou ainda, sequer ter um reserva e acreditar que um menino de dezessete ou dezesseis anos daria conta do recado é assinar um termo de “irresponsabilidade”.

O Fluminense, aliás, tentou vender o Carlinhos, mas a proposta não foi a que o Clube quis, senão a situação poderia ter sido pior bem antes. Se tudo tivesse ocorrido como queria Peter Siemsen e os seus, o Fluminense teria vendido o lateral, como fez com o Wellington Nem e com o Thiago Neves, contra a vontade dos jogadores e sem receber um centavo por isso.

Com as contas bloqueadas desde o final de 2012, o Fluminense sabia que não poderia contar com o dinheiro da venda desses jogadores, mas ainda assim se desfez dos atletas. Confiava em sua divisão de base, acreditava que qualquer jovem atleta chegaria e estaria pronto pra assumir a camisa de um clube do tamanho do Fluminense, estava errado, era óbvio, mas seguiram acreditando, como acreditaram que um meio de campo formado pelo Wagner, que não disse a que veio em 2012, e pelo Deco, que passou grande parte da sua passagem pelo tricolor no departamento médico das Laranjeiras, seria suficiente, não foi.

O Fluminense se planejou para ganhar a Libertadores, um campeonato em que a fase decisiva é decidida em mata-mata, onde a sorte é tão ou mais importante que a técnica e o planejamento. Com a eliminação, todo o planejamento para a temporada e o discurso de manter o time campeão foi deixado de lado. Negociaram dois de seus principais jogadores, além de peças importantes para o elenco, como Monzón, já citado, e o goleiro Ricardo Berna, ainda que todos soubessem que o titular, Diego Cavalieri, estaria servidor a seleção por diversas vezes. Pra fechar com “chave de ouro”, no fim, contrataram o terceiro reserva do Náutico, clube para onde negociaram o seu reserva para ser titular. Parece loucura não é mesmo? E é.

Peter não conseguiu segurar Abel Braga quando quis, também não conseguiu trazer o treinador de sua preferência que era o Ney franco. Espalhou pelos quatro ventos que Vanderlei Luxemburgo jamais seria treinador do Clube. Errou, mais uma vez. Luxemburgo assumiu, quando todos sabiam que daria errado, mas como contrariar aquele que tantas vezes lhe é útil, como na eleição e na reeleição?

Após a derrota para o Vitória, tentou demitir o treinador, por duas vezes no mesmo dia, e isso lhe foi negado e teve que aturar mais uma vez um técnico que não queria. Talvez tenha sido seu maior erro, ou o último ato de salvação, mas não conseguiu. Pressionado pelo principal grupo de apoio, pela falta de recursos, sucumbiu ao que seria seu último ato de fracasso. Com a sequencia de resultados negativos, Luxemburgo caiu, era inevitável, veio Dorival Junior, fracassado no Flamengo e no Vasco da Gama no mesmo ano, como daria certo no Fluminense? Não deu.

Ficou claro que alguns jogadores como o Kenedy não tinham condições de salvar o Fluminense. Bom jogador, com futuro promissor, mas incapaz de dar aquilo que o clube precisava. Alguns nessa tentativa desesperada de encontrar uma solução se sobressaíram, como Rafinha e Biro Biro . Outros não conseguiram muita coisa, como Ronan e Igor Julião.

Quando mais uma vez poderia ter tido a chance de reverter os erros da temporada, fracassou novamente. Com a recuperação de Wellington Silva, o jogador poderia ser a solução na lateral direita, assumindo o espaço de Igor Julião, fraco fisicamente, na marcação e perdido taticamente. Contudo, assim como com o episódio envolvendo o Emerson em 2011, Peter resolveu demonstrar mais uma vez sua “alma tricolor” e afastar o atleta por algo envolvendo um rival, parece ser incapaz de aprender com os próprios equívocos. Igor Julião falhou e o Fluminense não venceu o Atlético-MG, e no fim, Wellington Silva foi reintegrado num ato desesperado de vencer o Bahia. O Fluminense até venceu, mas era tarde demais.

Dias antes do confronto final, Peter mandou fechar o clube, tinha medo de que com o rebaixamento os sócios vandalizassem a sede. Dispensou em cima da hora o atacante Rhayner, criando mais um desconforto com o grupo e com a imprensa. Parecia que já aceitava o rebaixamento inevitável. Perdido, pressionado pelos sócios e torcedores, voltou atrás e liberou novamente o clube, numa clara demonstração de indecisão. E quando cito o Peter, o faço por ser ele o presidente do Clube, o responsável direto por todas as decisões do mesmo, principalmente do departamento de futebol, que assumiu após a saída do Sandro Lima da vice Presidência.

Existem muitos outros equívocos, muitas outras escolhas erradas, mas essas são as que um torcedor comum, que sequer se envolve com a política do clube, é capaz de perceber. O Fluminense foi novamente rebaixado, e segue o seu discurso inflamado de um futuro próspero, quando a realidade é o abismo. Muitos que o apoiam a gestão, até bem pouco tempo, diziam ser o Peter o maior presidente da história do Clube, mas está abaixo de Álvaro Barcellos e Gil Carneiro de Mendonça, que também sucumbiram no futebol, mas sem o investimento pesado que a atual gestão recebe, e sem ser campeão Brasileiro há mais de dez anos. O legado do Peter eu não sei qual será, mas o que ele recebeu, apesar das dívidas, foi um campeão brasileiro, que ele entregará para si próprio, rebaixado à série B.

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Sobre Rodrigo Barros

Rodrigo Barros
Profissional de Marketing Digital, SEO e Mídias Sociais, gosta de poesia, música e filmes, é pai da Heloísa e claro, torcedor do Fluminense.

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