A comercialização ilegal de sinal de internet se consolida como uma das principais fontes de receita do crime organizado no estado do Rio. Levantamento conduzido pela imprensa carioca aponta que facções criminosas e milícias exploram a venda do serviço ou tentam impor cobranças a quem atua legalmente. Quem recusa pagar sofre represálias. Somente nos quatro primeiros meses do ano, carros e até estruturas de empresas do setor foram queimados por criminosos em Cachoeiras de Macacu, Japeri, Paracambi e Maricá, na Região Metropolitana. Pontos dessa atuação ilegal foram mapeados em pelo menos 37 dos 92 municípios fluminenses.
A investigação baseou-se em inquéritos policiais, dados do Disque-Denúncia, além de relatos de moradores, operadoras e provedores.
A falha do poder público em evitar o domínio territorial por facções favorece esse tipo de crime e dificulta seu combate. Pedro Brasil, chefe da Delegacia de Defesa dos Serviços Delegados (DDSD), afirma que áreas controladas por criminosos são o maior obstáculo.
— Eles monopolizam serviços e produtos e passam a atuar em todas as regiões que dominam. Não só internet, mas também venda de gás, carvão e gelo. O problema é o controle do território. Toda área dominada é explorada assim — diz o delegado, antes de apontar uma dificuldade para a polícia: — O crime organizado também utiliza empresas legais para explorar o negócio, o que pode complicar as investigações.
Por isso, no âmbito da ADPF 635, a ADPF das Favelas, julgada no STF, o governo estadual foi obrigado a apresentar um Plano de Reocupação Territorial, que começará por três comunidades da Zona Sudoeste carioca hoje sob controle de grupos criminosos. A proposta é que, nessas localidades, após a retomada, seja implementado um projeto experimental: os cabos de internet nos postes seriam trocados por transmissão via rádio. Essa alteração poderia reduzir danos, furtos de equipamentos e possíveis retaliações de traficantes e milicianos interessados em retomar o negócio.
Onde facções e milícias atuam
A venda criminosa de sinal de internet surgiu em áreas dominadas por milícias, mas logo foi adotada pelo tráfico — e, em maior escala, pelo Comando Vermelho (CV). Lucrativo, o negócio ilegal avançou pelo asfalto e pelo interior do estado. Em regiões sob controle de bandidos, empresas oficiais são impedidas de fazer manutenção ou novas instalações. Então, os grupos ilegais passam a explorar o serviço.
Só a DDSD recebe, em média, 15 ocorrências por mês com algum tipo de reclamação de concessionárias. A lista inclui ataques violentos e proibições de acesso a certas áreas para atendimento e manutenção. Segundo o delegado Pedro Brasil, há casos registrados em diversas regiões do Rio: Baixada Fluminense, São Gonçalo, Cachoeiras de Macacu, além de Saquarema e Cabo Frio, na Região dos Lagos.
Provedores e operadoras ouvidos pela reportagem confirmaram que locais específicos de Angra dos Reis, no Fonseca (Niterói), São Gonçalo, Macaé, Duque de Caxias e Brás de Pina (Zona Norte do Rio) estão entre os alvos da ação de criminosos que exploram a oferta de internet. Vítimas de ameaças e restrições de acesso, as empresas enfrentam dificuldades para prestar atendimento comercial regular, o que às vezes leva à suspensão do serviço.
Ataques violentos
Em 2026, o primeiro ataque contra uma empresa de internet ocorreu em 6 de janeiro, em Cachoeiras de Macacu. O carro da empresa foi queimado no bairro de Papucaia. Houve mais episódios violentos nos dias 22 e 23 de março, em Japeri e Paracambi, respectivamente. Na primeira cidade, um escritório e um automóvel foram incendiados. Na segunda, um veículo usado na manutenção de redes de fibra ótica também foi queimado. Um criminoso chegou a enviar mensagem por redes sociais ameaçando quem não pagasse as taxas de extorsão. O caso mais recente é de 28 de abril: o veículo de um técnico foi atacado e queimado em Maricá.
As investigações mostram que traficantes e milicianos atuam de duas formas. Em alguns casos, os bandidos usam empresas de internet, sob gestão própria ou de laranjas, que têm exclusividade nos territórios dominados. Em outros, passam a cobrar taxas de operadoras e provedores locais. O valor da “permissão para trabalhar” pode chegar à metade do valor pago pelos clientes. É o que ocorre em Campos Elíseos e Saracuruna, em Duque de Caxias.
Nos dois bairros, uma investigação mostrou que os traficantes Joab da Conceição Silva (Joab) e Carlos Henrique Santos de Araújo (CH) adotavam essas práticas. Eles são considerados foragidos.
— O Joab explorava serviços de internet por meio de empresa legalizada gerida por laranjas. Essa empresa entrou depois que bandidos ameaçaram os prestadores que atuavam na região. O grupo do Joab tomou pontos físicos de internet e roubou objetos de quem foi expulso. No caso do CH, ele cobrava taxas de uma empresa já estabelecida — revela a delegada Patrícia Uana, da 23ª DP (Méier), que prendeu 15 pessoas e indiciou 31 suspeitos de integrar os grupos criminosos.
Pressionadas pelo crime organizado, empresas suspendem atendimento. Um empresário que não quer se identificar diz ter abandonado demandas em 27 bairros de São Gonçalo porque seus funcionários não conseguem acessar locais dominados por criminosos. Segundo ele, a empresa, que atua em boa parte do estado, incluindo a capital, deixou de crescer 10%.
— O tráfico não está só na comunidade. Chegou à área do Fonseca, na Alameda (Niterói), e a São Gonçalo. Neste município, perdemos quase 10 mil clientes. Sem a expansão de 10% prevista ao ano, cerca de 150 empregos diretos, com carteira assinada, deixaram de ser criados — afirma o empresário. — O Rio de Janeiro é uma zona minada, é muito difícil trabalhar. A Região dos Lagos também tem cidades com locais que você não consegue mais atender. Cabo Frio tem, Rio das Ostras tem, Búzios também.
Em 2024, o Disque-Denúncia (21 2253-1177) recebeu 1.772 ligações sobre venda clandestina de internet e TV a cabo. Em 2025, foram 2.047 registros, alta de mais de 15%. Já de janeiro até 8 de maio de 2026, foram mais 593 chamadas. No período, a capital lidera com 279 denúncias.
Projeto-piloto
Segundo o delegado Pablo Sartori, subsecretário de Inteligência da Secretaria Estadual de Segurança Pública (SSP), só nas localidades Muzema, Rio das Pedras (Itanhangá) e Gardênia Azul (Jacarepaguá), a pasta identificou 18 empresas explorando o serviço. A primeira e a terceira têm áreas controladas pelo tráfico, enquanto a segunda está sob domínio da milícia. Estima-se que os grupos criminosos arrecadem mensalmente R$ 3 milhões com o negócio ilegal. As três áreas constam no plano de reocupação territorial enviado pelo governo estadual ao STF.
Sem o domínio de traficantes ou milicianos, essas regiões passariam a ter outra forma de conexão à internet.
— Conversamos com grandes operadoras, todas aceitaram fornecer internet via rádio para essas comunidades. Funcionaria como os celulares, que recebem internet de boa qualidade via sinal de rádio, sem cabos. Cada casa teria um modem que receberia o sinal por antena de telefonia — diz o subsecretário. — A exploração de internet está na base da estrutura do crime organizado. Hoje o crime vive sem venda de drogas, mas não sem atividades econômicas como a internet.
Procurada, a Polícia Militar afirmou que a extorsão e a exploração clandestina de serviços são práticas dissimuladas e, por isso, a participação da população é essencial para combatê-las. A Polícia Civil disse, em nota, que delegacias especializadas e distritais vêm intensificando ações de inteligência, monitoramento e operações para desmontar a estrutura financeira das facções.
Também procurada, a Conexis Digital, sindicato das empresas de telecomunicações, afirmou que as restrições impostas pelo crime organizado vêm crescendo e ocorrendo em diversas localidades. Segue a íntegra da nota enviada:
“O bloqueio de acesso das equipes das prestadoras em algumas regiões pode afetar a capacidade das empresas de realizar manutenção e instalação de seus equipamentos. Essas restrições vêm ganhando espaço e ocorrendo em diferentes localidades, impactando o fornecimento e a qualidade do serviço prestado, além de colocar sob ameaça a integridade das equipes das operadoras. O tema requer medidas efetivas e o setor defende uma ação coordenada de segurança pública envolvendo Judiciário, Legislativo e Executivo, nos níveis federal, estadual e municipal, para garantir que as empresas, de forma livre e segura, possam continuar oferecendo suas soluções, e que a população tenha livre acesso aos serviços essenciais de telecomunicações.”









